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Nem o céu é o limite para as mulheres

Nem o céu é o limite para as mulheres
O desejo de ser piloto nasceu durant a divulgação do curso por uma equipe do Aeroclube de Carazinho na escola onde cursava o Ensino Médio
07.03.2019 18h36  /  Postado por: helaine
Helaine Gnoatto Zart | contato@afolhadosul.com.br

A menina que veio do interior, de uma família muito simples, filha de Pedro e Lori Friedrichs, que estudou em escola pública, nunca imaginou que um dia estaria voando tão alto. Ela trocou a faculdade de Ciência da Computação pelo curso de piloto de aeronave e, desde 2007, não parou de voar. Hoje é destaque no cenário nacional como piloto e instrutora de voo, única mulher em atividade como instrutora.

Joelize Friedrichs iniciou o curso de piloto e, 2007 e acumula horas de voos como profissional desde 2009 – Foto de Daniella Quadros

Joelize Friedrichs, 29 anos, trabalha com aviação agrícola desde 2012, apesar de estar habilitada para atuar como piloto comercial. Nesta entrevista ao Jornal A Folha, conta como foi sua trajetória e é mais uma prova de que a mulher pode estar onde ela quiser. E no seu caso, nem o céu é o limite para sua capacidade e competência.

Como foi que sua história iniciou?

JOELIZE – Nós morávamos na localidade de São José do Centro – os pais e uma irmã. Meu pai trabalhava de motorista para a Granja Luiza. Iniciei os estudos na Escola Municipal Amália Kerber, da localidade. Como a empresa que meu pai trabalhava mudou a estratégia de atuação, viemos morar na cidade e continuei o ensino fundamental na Escola Municipal Nossa Senhora de Lourdes. O ensino médio, cursei no Solano e foi lá que nasceu meu desejo de ser piloto. Uma equipe do Aeroclube de Carazinho esteve na escola divulgando o curso de piloto e as oportunidades da profissão. Cheguei em casa e disse que era isso que eu queria.

Como foi a reação de teus pais?

Eu já estava aprovada no vestibular de Ciência da Computação. Meus pais apenas questionaram como poderia saber que era isso que eu gostaria de fazer sem nunca ter voado? Então decidimos conhecer o Aeroclube e foi uma iniciativa muito importante. Tive meu primeiro voo como passageira e foi incrível. A decisão foi tomada ali mesmo. Meus pais foram muito importantes, porque, além de custear minha formação e da minha irmã – formada em engenharia civil -, sempre nos estimularam a não ter medo de fazer algo diferente.

Qual foi a principal dificuldade?

Antes de iniciar, meu pai disse que não seria fácil pagar o curso, mas tive o imediato apoio da família. Eu poderia fazer 2 a 3 horas de voos apenas ao mês, e isso demandaria mais tempo para me formar. Eu levei dois anos, enquanto tem quem conclui o curso em seis meses.

Fui muito bem recebida no Aeroclube pelo presidente, instrutores, mecânicos e colegas. Foi um ambiente que me estimulou muito a aprender sobre aviação, mecânica, burocracia. A dificuldade de pagar acabou ajudando na minha formação pela experiência que tive durante a vivência no Aeroclube. Assim eu tirei a primeira carteira de piloto privado, antigamente chamada de Brevê. O próximo passo foi aumentar as horas de voos para buscar a carteira de piloto comercial, mas a situação financeira da família piorou e as aulas ficariam menos frequentes. Foi no meu convívio com outros pilotos que soube da possibilidade que voar em Cuiabá, no Mato Grosso, onde pilotos poderiam voar de graça em troca da experiência que somaria como tempo para obter a carteira de piloto comercial.

O desejo de ser piloto nasceu durante a divulgação do curso por uma equipe do Aeroclube de Carazinho e já conquistou até a carteira de piloto comercial – foto arquivo pessoal

Eu nunca havia morado fora de casa e, em uma semana, me apresentei na empresa onde consegui, em quatro meses, experiência suficiente para tirar minha carteira comercial, por instrumento e piloto de avião com multimotor. Também fiz muitos contatos que me abriram a oportunidade de trabalhar com taxi aéreo. Ali o mundo da aviação praticamente se abriu pra mim, através dos contatos, experiências com diversas aeronaves e rotas. Quanto mais eu voava, mais gostava. Em meio a tudo isso, tinha um lado negativo, que não havia oportunidade de crescimento e as empresas aéreas de linha não estavam contratando. Em 2012, o Pastel (Paulo César Barbosa) me chamou para ser instrutora do curso de voo no Aeroclube de Carazinho. Eu voltei e, nesse meio tempo, o Dalton Schlichting – presidente do Aeroclube – me apresentou a aviação agrícola e eu achei o máximo. Decidi na hora trocar o voo comercial que era meu propósito, pelo agrícola.

Durante tua formação ou trabalho, sentiu algum tipo e preconceito ou discriminação por ser mulher?

Não me ocorre nenhuma situação em que tenha sentido discriminada. A primeira dificuldade que senti foi por falta de desenvoltura para enfrentar o novo. Como eu nunca havia saído de casa, meu convívio se baseava num pequeno círculo formado por familiares e colegas de escola. Isso me intimidou no início, no entanto, não lembro nenhuma situação embaraçosa ou discriminatória. O máximo foi piadinhas, como ‘mulher não sabe nem dirigir e quer pilotar”, mas eu nunca me incomodei nem isso me prejudicou.

Você perdeu algum trabalho por questão de gênero?

Que eu saiba, não. Quando fui ao Mato Grosso trabalhar, também não tive problema. Os voos eram simples, saíam de manhã e retornavam à tarde. Não tinha necessidade de pouso, quando a situação poderia se complicar por não ter onde dormir, já que nas fazendas só trabalham homens. Também nunca fiquei parada por causa disso. Diante dos clientes até ocorria algum impacto, mais pelo fato de não ser tão comum mulher pilotar. Mas, quando se assume uma aeronave, ali está um comandante, não um homem ou uma mulher. E é isso que importa.

Por que tu achas que a mulher é vítima de tanta violência?

Voar: é isso mesmo que ela desejou e está fazendo – foto arquivo pessoal

Eu penso que tem a ver com a cultura de uma época em que a mulher era criada para ser submissa, para aguentar tudo sem direito de reclamar. Isso ainda está na raiz da cultura de muitos homens e está entrando em choque com mulheres que já não são mais submissas. Eu nunca vivenciei essa experiência de violência contra a mulher, nem no meu círculo familiar. Eu não falo com propriedade sobre isso, mas acho que começa com a violência emocional e termina na física, porque a mulher já está abalada em sua autoestima e por isso não consegue se defender, sair de uma relação abusiva.

Como hoje a sociedade permite que a mulher busque seu espaço, não é mais possível permitir que alguém se imponha de forma abusiva. Cabe à mulher conquistar seu espaço, fazer por merecer, não ficar esperando ser reconhecida dentro de casa ou no trabalho.

Como você se sente em relação a este trabalho? Existe um grande futuro ainda nesta área ou a tecnologia do uso de drones ameaça a profissão?

Nós na aviação agrícola acompanhamos de perto a evolução das tecnologias. A questão do drone não é algo que nos preocupa a curto prazo, porque os equipamentos não têm capacidade par atender a demanda que a aviação agrícola atendo em pulverização e plantio. A maioria das pessoas que mexe com drone para a agricultura vem da aviação. A curto prazo, os drones podem ter demanda crescente no mapeamento de área, localização de focos de doença.

Quanto te preocupa o uso de agrotóxico na produção de alimentos?

Sinceramente, não me preocupa. Eu confio muito no trabalho que a gente faz, na fiscalização e na regularização dos agroquímicos. Eu penso que é muito mais danoso para as pessoas consumir refrigerantes e cigarro, conviver com a poluição urbana do que os produtos empregados nas culturas agrícolas. Nós trabalhamos direto com esses produtos, temos colegas com mais idade trabalhando há muito tempo e não tenho conhecimento de alguém da nossa classe com problema de saúde devido aos produtos com os quais trabalhamos. Hoje, sem tratamento agroquímico, não existe produção. As empresas de aviação sofrem uma fiscalização bastante rígida no que se refere aos produtos usados, à descontaminação, cuidados com rios, com a cidade, o que não ocorre com a aplicação terrestre.

Joelize encerra garantindo que, “aos 17 anos, não tinha perspectiva de crescer na vida e, hoje, me sinto muito feliz e orgulhosa de ter chegado até aqui”.

A não-me-toquense é a única mulher instrutura de voos em atividade no Brasil – foto arquivo pessoal

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