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Sol Nascente (visão aérea na foto) tem 36.283 moradias, segundo o IBGE

22 de abril de 2024

Aos 64 anos, Brasília tem a maior favela do país

Só 30 km separam a residência oficial do presidente das casas do Sol Nascente; comunidade tem 36.283 domicílios

Cerca de 30 km separam o Palácio do Planalto, sede da Presidência da República, das casas do Sol Nascente —a maior favela do Brasil—. Ao todo, 36.283 domicílios compõem a área, onde parte da população convive com esgoto a céu aberto e em habitações que destoam da arquitetura futurística e do planejamento urbano prometido por Juscelino Kubitschek na inauguração de Brasília, há 64 anos.

Nos últimos 20 anos, houve um aumento de 1.299% na população do Sol Nascente. O crescimento exponencial da região deu a ela o título de maior favela brasileira, segundo dados do Censo de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A comunidade desbancou a Rocinha, no Rio de Janeiro, onde há, atualmente, 32.962 domicílios.

Neste domingo (21/04/2024), a inauguração de Brasília completou 64 anos. Idealizada pelo então presidente Juscelino Kubitschek e planejada pelos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, a nova capital recebeu investimentos estimados em US$ 1,5 bilhão, para valores da época.

As ocupações irregulares, no entanto, logo passaram a fazer parte da história do Distrito Federal. Em 1971, Ceilândia foi construída para erradicar as favelas que começavam a surgir nos arredores de Brasília. Foi resultado da CEI (Campanha de Erradicação das Invasões). A área ganhou o título de região administrativa, divisão própria do DF para descentralizar e coordenar serviços públicos.

O Sol Nascente começou a se formar com a expansão de Ceilândia por meio da grilagem. A comunidade que era, inicialmente, um setor de chácaras, chegou a ser considerada um conjunto habitacional, e em 2019 se tornou uma região administrativa separada. O nome técnico da área é Sol Nascente e Pôr do Sol (por abranger outra comunidade localizada ali perto).

Atualmente, segundo o IBGE, 101.866 pessoas moram no lugar. Uma delas é Edson Batista, de 44 anos. A história dele converge com a do lugar. Nascido e criado em Ceilândia, ele comprou um lote na área em 2000 depois de se casar. Queria constituir sua própria família, mas o orçamento era pouco. "Foi o Sol Nascente que me deu condições", diz em entrevista.

As condições sociais eram precárias. Ele acabou se tornando líder comunitário por necessidade e ajudou a construir a comunidade.

— A gente não tinha água, não tinha luz. Era tudo na gambiarra. Não tinha estrada, não entrava carro. Tinha que cobrar do Estado para colocar ônibus, passar caminhão de lixo. Todo mundo chegou na mesma situação e precisou organizar a comunidade —, declara.

A precariedade ainda faz parte do dia a dia dos moradores da região. A renda per capita média é de R$ 710 e o salário médio é de R$ 1.578 por mês, de acordo com dados da Pdad (Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílio) de 2021 da Companhia de Planejamento do Distrito Federal.

Apesar dos números e da ocupação irregular característica da área, moradores relutam em aceitar a definição de favela. Edson defende que a infraestrutura tem melhorado e o Sol Nascente não é parecido com as grandes comunidades do Brasil, como a Rocinha, no Rio, ou Heliópolis, em São Paulo.

Onde está a Favela

A perspectiva de Edson é compartilhada pelo presidente Lula. O chefe do Executivo esteve no Sol Nascente em 11 de abril para o lançamento da pedra fundamental do campus do IFB (Instituto Federal de Brasília) na região. Ele disse ter ficado surpreso com a organização do lugar.

— Faz 1 mês que vim de helicóptero e me comunicaram quando eu estava passando em cima da favela Sol Nascente. Fiquei olhando onde é que estava a favela. Sinceramente, o Sol Nascente não tem nada a ver com o que a gente conhece de favela no Rio, São Paulo, Pernambuco, Ceará —, disse Lula.

O administrador regional do local, Cláudio Ferreira, é contrário à definição.

— Eu sou contra esse título de favela. Não faz sentido esse rótulo. A realidade, hoje, é de uma cidade organizada, com atenção do governo do Distrito Federal —, fala em entrevista.

Ferreira é o 2º administrador do Sol Nascente. Sua função é articular a cobrança de demandas pela população e a execução de serviços pelo governo. Está no cargo, por indicação do governador Ibaneis Rocha (MDB), desde 2023. Antes, o havia ocupado em 2020.

Ele considera que o status de região administrativa foi importante para o avanço da infraestrutura da região. "Eu acho que realmente passou a investir mais depois disso". A Secretaria de Obras do Governo do Distrito Federal disse que já investiu R$ 198 milhões em obras de pavimentação asfáltica, drenagem, construção de calçadas, meios fios e sinalização nas 3 subdivisões do Sol Nascente.

O órgão diz que o trabalho é feito tendo em vista os principais problemas da ocupação irregular e desordenada. Quando chove, a região alaga, inundando as casas de água e lama. Os moradores têm dificuldade de locomoção. Já na época da seca, a poeira é um potencializador para problemas respiratórios.

No momento, 72% dos serviços foram executados no Trecho 1. No Trecho 3, onde se concentram os alagamentos, somente 40% do trabalho foi feito. Só no Trecho 2 as obras foram 100% concluídas. A expectativa é de que sejam finalizadas neste ano.

Segundo a Codhab - DF (Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal), um total de 840 moradias estão em construção e devem ser entregues à população de baixa renda. Foram solicitadas outras 600 especificamente para pessoas em extrema vulnerabilidade social.

O administrador Carlos Ferreira fala que o comércio tem se fortalecido e elenca os avanços da comunidade:

— Nós temos escolas, temos um restaurante comunitário, tem o terminal rodoviário que foi inaugurado neste ano. Agora, estamos na reta final da construção da Casa da Mulher Brasileira. Logo, vai ser lançada uma UPA e temos previsão de ter uma delegacia.

Ferreira define o Sol Nascente como uma "cidade organizada e promissora".

Problemas Persistem

O professor Alberto Faria, coordenador do curso de Arquitetura do CEUB (Centro Universitário de Brasília), explica que a área do Sol Nascente tem características distintas do imaginário comum sobre as favelas. Não há morros, terrenos acidentados ou barreiras topográficas e fluviais, como córregos. A geografia e o Cerrado que ainda cerca parte do DF permitem que não haja a verticalização da área, formando um "amontoado" de casas.

Essas particularidades, em parte, também explicam a grande quantidade de domicílios da região.

— É uma característica que por um lado facilita a organização da área, mas por outro lado traz problemas porque também intensifica a expansão desordenada —, diz o professor.

Para o líder comunitário Edson Batista, a continuação do crescimento desordenado é um dos principais problemas. Com isso, problemas de falta de energia e saneamento persistem. Segundo ele, os moradores de novas ocupações continuam fazendo gambiarras para contornar os problemas. Ainda falta fiscalização e amparo.

O professor Alberto Faria considera que essa é uma questão problemática para o DF como um todo.

— A grande preocupação a meu ver é que essa desordem no crescimento possa criar uma condição que não possibilite uma solução possível.

No caso do Sol Nascente, a população, que cresce cada vez mais, ainda depende de outras regiões administrativas para acessar serviços básicos. Muitas crianças e adolescentes precisam frequentar escolas em Ceilândia e Taguatinga. Há somente 3 escolas (públicas) e 3 unidades básicas de saúde para atender as demandas da região.

Discrepâncias

A última edição da PDAD (Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios), realizada em 2021, também traz dados que ilustram bem a situação do Sol Nascente.

Renda per capita - a média é de R$ 710. A disparidade é grande quando se compara o mesmo índice com o Lago Sul, o bairro mais rico de Brasília e do Brasil. A renda média lá chega a R$ 23.000;

Cor de pele - a maioria (68%) da população se declarou preta ou parda. Apenas 30% são brancos. No Lago Sul, os números se invertem: brancos são 67% e pretos ou pardos 30%.

No Sol Nascente, a insegurança alimentar atinge metade da população. Um restaurante popular já se encontra instalado lá, onde as refeições custam R$ 1. Outro está em construção.

As oportunidades de emprego também são escassas na comunidade. A maioria esmagadora (92%) dos moradores de lá trabalham em outros locais do Distrito Federal. Ceilândia fica em 1º lugar para destinos de empregos, com 35% dos trabalhadores ativos se deslocando até lá. O Plano Piloto, onde fica a Praça dos Três Poderes, vem em seguida, com 31%.

Fonte: Poder360

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